Partimos do pressuposto de que a inovação corresponde a olhar para coisas que já existem ou podem ser criadas de novo, mas concretizadas de forma original. Trata-se de olhar para a realidade como «outros olhos» por vezes dando-se conta de que as soluções para os problemas estiveram sempre «à frente dos nossos olhos» e «não demos por ela!».
Um planeta viável num cenário curto que se estende até 2050 implica que o ser humano consiga inovar tecnológica e socialmente, inovar nos processos de gestão, publica e privada. Mas inovar concretamente em quê?
Um bom rascunho de planeamento e política pública dirigido aos objetivos de sustentabilidade deve passar pelo próprio entendimento do que é o exercício de cidadania, sendo que, no fundo no fundo, é onde se afere a posse e não posse de capitais pelos cidadãos e suas famílias.
Falamos da posse de capital económico (evidentemente), mas também de outros capitais que se relacionam entre si, cujo entendimento pode ser um pouco mais complexo, mas que se reflete sempre no que entendemos por qualidade de vida.
Falamos, assim, do capital social (redes de relacionamento social que um indivíduo pode rentabilizar a seu favor, ou noutro entendimento, a rede de relacionamentos individuais e coletivos que pode ser rentabilizada para benefício de todos, da comunidade). Falamos também do capital simbólico ou político, ou seja, o poder de influência de um indivíduo, e também do capital cultural das pessoas, ou sejam, as suas habilitações e títulos académicos.
Se repararmos bem, estes capitais são precisamente os domínios de análise do exercício pleno de cidadania, que nos falam do autoconceito e suporte familiar, participação política e acesso ao mercado de trabalho nas suas funções de integração social. Seguidamente podemos enunciar a relação das pessoas com os mecanismos geradores de recursos (onde entram as pensões ou o acesso a crédito, ou a possibilidade de poupanças). Também são muito importantes as caraterísticas do território, a habitação acedível, os equipamentos sociais em presença, as acessibilidades e as atividades económicas presentes.
O corolário destes aferidores de «laço social» dos cidadãos recai nas políticas públicas dirigidas a sistemas prestadores de serviços que devem ser, o mais, possível, protegidos dos mecanismos de mercado. Falamos da saúde, da educação, da justiça e da habitação.
Reparem que os objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU remetem todos para estes domínios de análise da cidadania e para o modo como o ser humano se posiciona nos capitais que referimos. Falando de natureza e de pessoas, tocamos no exercício, pleno ou não, da cidadania.
Sou um observador atendo do que passa à minha volta e concretamente na minha cidade. Observo as obras que se realizam na zona de Santo Ovídeo em Vila Nova de Gaia, e a construção de um viaduto que leva o metro do Porto às zonas do hospital Santos Silva e freguesia de Vilar de Andorinho (com 18000 habitantes) e nela a urbanização Vila D’ Este. Mais do que ficarmos deslumbrados com a obra em si, vamos pensar um pouco.
É uma inovação social pensar em conjunto e no conjunto da área metropolitana do Porto. Um país desenvolvido não é um país em que todos os cidadãos têm acesso a um automóvel. Um país desenvolvido é um país onde o máximo de cidadãos pode deslocar-se pelo território usando uma rede de serviços de transportes públicos. A inovação técnica recai nas infraestruturas do metro em si, mas os benefícios sociais desta obra são incomensuráveis.
Falamos de não só reduzir a circulação de veículos nas cidades de porto e Gaia, o que em si é já um ponto a favor do ambiente, mas falamos essencialmente de colocar em acessibilidade central não só o hospital de Gaia, mas toda a freguesia de Vilar de Andorinho. Os dias em que quando passamos na autoestrada que liga Lisboa a Porto e olhamos para a nossa direita e observamos prédios contentores de população que podem ser associados à ideia de «bairro» estão a terminar, e esse será um ponto com acessos privilegiados. Em vez de um «beco sem saída», o acesso pelo metro vai transformar o território em ponto de expansão, e não de términus.
O que isso tem a ver com o exercício da cidadania e com a posse de capitais determinantes do «laço social» dos residentes na cidade e até na área metropolitana? Tudo. Conseguimos relacionar as acessibilidades e o planeamento do território, direta ou indiretamente, com quase todos os objetivos de desenvolvimento sustentável eleitos pela ONU como referenciais para um cenário «Smart» para o planeta.
Artigo Opinião: José Morais
