Durante a década de 60 e 70 do séc. passado o termo contracultura era usado para referir formas de pensamento que colidem com a mainstream, ou seja, o pensamento da maioria… Podemos situar a sustentabilidade neste entendimento de contracultura, ou de luta permanente contra o vulgar do quotidiano? Não. Os ideais de sustentabilidade devem fazer parte, e estão cada vez mais a fazer parte, do que é o pensamento da maioria. Deveremos chegar a um ponto em que o pensamento que não contempla a sustentabilidade em todas as suas dimensões, esse sim, é contracultura.
Pensem bem: é possível para o mundo ocidental continuar a receber as vagas de seres humanos que, a pé ou a nado, tentam desesperadamente fugir do continente africano, indiano, asiático ou centro e sul americano? Reparem que as populações do planeta estão em debandada, desorganizada e com aproveitadores de circunstância, para meia dúzia de pontos de abrigo, por exemplo em alguma da Europa. A questão não está no receber, mas no permitir, com qualidade de vida, a fixação das populações nas suas regiões de origem.
Sustentabilidade remete para a possibilidade de fixação de populações num determinado território, e que de modo generalizado tenham acesso ao conjunto de aspetos que podemos reunir sob a designação de qualidade de vida.
O que estou a tentar dizer é que a sustentabilidade do planeta nos remete para questões climáticas, mas o espectro da sustentabilidade é muito mais vasto. As pessoas pobres, desprovidas de capitais, poluem mais? Se a pobreza de regiões inteiras estiver relacionado a concentração não-planeada de população em aglomerados urbanos começamos a ver relações entre os temas. Se a falta de infraestruturas de cuidado básico estiver relacionada com a não separação de resíduos ou a reciclagem de materiais começamos também a ver mais relações ainda. Relacionar a ausência de formação/ educação com a perpetuação de ciclos de pobreza intergeracionais começa também a mostrar mais a «pescadinha de rabo na boca» que liga a perpetuação da pobreza ao não estimar o planeta.
O «mercado» ou os mercados precisam de mão-de-obra barata e matérias primas acessíveis. A própria noção de mercado precisa desta presença de fornecimento de recursos humanos ou materiais (conceitos relacionados, mas diferentes). Normalmente a mão-de-obra barata anda associada a baixas qualificações. Conforme diz um amigo meu, trata-se de mão-de-obra altamente desqualificada. Qual é o problema disso, nenhum. Começa a ser associada a não-sustentabilidade se andar de mão-de-obra andar de mão dada com a pobreza. Os recursos naturais mais baratos seguem uma lógica semelhante, pois existe um efeito primário do uso não regrado de recursos naturais, que podem estar, literalmente, «a saque». Um efeito secundário da exploração de recursos, naturais e humanos, é o escasso critério de tratamento de subprodutos, inertes, alguns deles venenos (literalmente), ou consequências na saúde de pessoas no longo prazo, etc. Daí que a inexistência de legislação sobre estes temas em alguns países é, em si, um recursos natural a aproveitar. Inexistência de legislação ligada a questões ambientais? Já pensaram que alguns países não tem sequer Estado e logo não têm legislação, tribunais, etc? Em alguns países é uma área de negócio vantajosa receber lixo. Alguns países são pagos para receber lixo, que não vai ser reciclado.
O planeamento global da «higiene» carbónica do planeta deve contemplar todos os pontos do globo e as suas populações. Sim, uma garrafa de plástico largada numa praia da India vai parar a uma das ilhas do nossos Açores. Sim, mil toneladas de dióxido de carbono produzidas na China diariamente são respiradas também pelos gregos (imaginem). Parece que não tem nada a ver, mas está tudo interligado.
Vamos arrumar a casa, mas sem o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ONU) nº 17 não estar viabilizado nada feito. O 17º é o último deles todos, mas é o mais importante pois é o cimento de todos os outros objetivos.
Falamos de reforçar os meios de implementação e revitalizar a parceria global para o desenvolvimento sustentável. É disso que estamos a falar. Percebem por que referi num post anterior que os países mais ricos vão ter que financiar e potenciar o desenvolvimento dos países mais pobres?
Artigo Opinião: José Morais
